Orem por eles
fevereiro 28, 2018
Vida da Helô
fevereiro 28, 2018

O dia ainda não clareou quando os primeiros gritos rompem o silêncio do Jardim Jaguaré.

Era o ano de 1988.

Pessoas a caminho do trabalho buscam abrigo. Quem está em casa desperta e corre para a janela. Para surpresa dos moradores,
a confusão é causada por dois leões famintos que fugiram de um circo mambembe instalado nas cercanias e espalham
terror nas pacatas ruas do bairro da zona norte.

Por mais surreal que pareça, a cena é uma das passagens mais marcantes da história de Rio Preto. O fato terminou
da pior forma possível: em tragédia. O aposentado José Martins Garcia, então com 67 anos, foi atacado pelo macho
e morreu na hora. O pior dia do bairro ainda está vivo na memória do pessoal mais antigo.

A chegada do Circo Di Veneza, em um lugar em formação, já seria suficiente para chamar a atenção e se tornar atração máxima.
Mas a presença de uma casal de felídeos, Gero e a leoa Malvina, mexeu com o imaginário. O que pouca gente se
deu conta é que eles estavam presos em uma frágil jaula e não eram alimentados de forma satisfatória. Combinação que, de fato, terminou de forma funesta.

O açougueiro Claudemir Ferreira Lemes foi acordado, pouco depois das cinco horas, com a terrível frase: ‘ele vai matar o homem’. Não pensou em outra atitude a não ser correr para a porta. “Vi o leão puxando uma pessoa (arrastou
por 30 metros). Minha mãe desmaiou. Pensou ser meu pai, que era vigia e chegava naquela hora. Minhas pernas ficaram
trêmulas. Sentei na hora.”

Após recuperar a respiração, Lemes foi para a janela. A essa altura, o animal havia deixado José estirado e corria pelo
bairro. A Polícia Militar começou a avisar a população para se proteger ou nem sair de casa. Uma caçada sem igual foi iniciada
pelas ruas. A tensão aumentava com o barulho das sirenes das viaturas.

José tinha costume de sair de casa cedinho para comprar pão e leite na padaria. Quase não escutava, em razão de um
problema auditivo. Um segurança (sogro de Lemes) notou o leão fuçando no lixo e tentou avisar a aposentado, já a caminho
de casa. Seus gritos, no entanto, não foram entendidos pela vítima, mortalmente atacada. Deixou a mulher e cinco filhos.

O comerciante Geraldo Aparecido da Silva era dono da mercearia e foi surpreendido ao chegar para trabalhar. Ficou preso dentro da sua Kombi por mais de uma hora. Nesse ínterim, viu o leão correr em sua insana tentativa de fuga pelo Jaguaré, bairro em formação e com poucas casas. “Foi traumático. Ninguém acreditava no que acontecia.”

Trinta policiais foram ao bairro e atiraram várias vezes contra o macho. Pesava oito quilos e estava assustado e bravo. Mas os tiros de calibre 38 não causaram grande efeito. A fêmea ficou escondida embaixo de um ônibus. Os bombeiros lançaram
dardos com tranquilizantes, mas não deu resultado. Segundo edição do Diário de 29/10/1988, o dono do Circo Di Veneza, Paulo César Vieira, autorizou que os bichos fossem abatidos.

Não havia alternativa. Gero foi morto pelo soldado Edson Luiz Felippe. De dentro de uma viatura, Felippe atirou com uma espingarda 12 e acertou a cabeça. Malvina foi abatida do mesmo jeito por outro policial. Depois da morte dos animais,
a população, revoltada, aglomerou-se no local. O sentimento causou preocupação à PM. Parte ameaçava destruir o
circo e tocar fogo na lona. Os artistas desapareceram e se apresentaram mais tarde na delegacia.

O dono da trupe foi indiciado por homicídio culposo. Com medo, deixou o bairro no mesmo dia. Na época, declarou que comprou os leões havia oito meses e não os usava nos espetáculos.

Silva lembra que, durante duas semanas, a população ficou assustada. “Muitos acreditavam que o leão estava vivo e solto.
Outros apareciam para conhecer o lugar.” O assunto, de fato, ainda está vivo na memória  e coração dos moradores.