Rubem Alves
fevereiro 28, 2018
Atos de gentileza
fevereiro 28, 2018

Não estranhe se for convidado para tomar uma no Toco, Zé Rodela, Coices, Vela Véia, Butreco, Bartolomeu ou Chibiu. Não se trata de brincadeira, pilhéria ou piada. Esses nomes diferentes, estranhos e brincalhões batizam filiais de uma instituição famosa em Rio Preto: o bar.

Encontrar nomenclatura diferenciada para chamar o boteco é tão importante quanto vender cerveja gelada em plagas tão quentes como as nossas. É aceitável usar licença poética e até ser politicamente incorreto. Bar permite isso. Imagine outro estabelecimento, de qualquer segmento, batizado como Coices. Espantaria a clientela na hora.

Mas o êxodo não ocorre no barzinho em funcionamento há 17 anos no Jardim América. O público é fiel. No começo da sua jornada comercial, Jorge David Basaglia, 56 anos, vivia às turras com um cliente indesejado: o famigerado ‘pingaiada’.

No dicionário botequeiro, pingaiada é adjetivo, geralmente masculino. 1. Bebe demais. 2. Não tem dinheiro para pagar a conta. 3. Importunador. 4. Transforma o ato de ir ao bar em sacerdócio. 5. Pedinte contumaz de cigarro, pinga e copo de cerveja.

Um amigo sugeriu o nome para espantá-lo e Basaglia aceitou. “Pingaiada apareceu, a gente toca na hora. A clientela é sossegada. Não tem espaço para gente chata.” O estabelecimento é decorado com motivos que lembram o famoso golpe animal.

O Toco, na Anchieta, também tem história. Há 24 anos, data da sua abertura, existia gigantesca árvore na calçada. Teve que ser retirada. Restou o quê? O pedaço do tronco. O curioso é que foi aposentado em razão da velhice.

Um segundo exemplar foi providenciado. “Foi natural prestar essa homenagem”, conta o dono, Nilton Longhi, 48 anos. Nas redondezas, ninguém o conhece como Nilton. Só por Toco. Amadeu Nunes, 66 anos, é frequentador assíduo do lugar. “Os amigos sempre chamam a gente para tomar uma no Toco. É tradição.”

Já o Zé Rodela, na Anchieta, é referência ao apelido de José Aparecido Alves, 60 anos. Sua origem é ignorada. Foi herdado do pai, Joaquim. Agora, o neto de comerciante é conhecido como Jean Rodelinha. “Ele não gosta. Mas não tem o que fazer.” José não se incomoda com os trocadilhos infames criados a partir da alcunha, repassada como herança entre gerações.

Quem visita a Maceno fica curioso ao ler Vela Véia. O pensamento decola, mas dificilmente se supõe que é referência ao antigo ofício de Cláudio Spesamiglio, 58 anos. Nos anos de 1970, ele recuperava velas automotivas. Quando abriu o botequim há 15 anos, não hesitou e usou o apelido. “Não teve como evitar. O negócio acabou, mas o nome ficou.”

No Solo Sagrado, tem o Projeto. Qual seria esse notório objetivo? “Enriquecer”, brinca Lourival Cândido da Silva, 67 anos. Garante que, após dez anos, ainda não conquistou a tão sonhada conta recheada com milhares de Reais. Mas não desiste.

No coração da Boa Vista existe o Chibiu. Desde a infância, Edson Albano, 28 anos, carrega o apelido, popularizado no Sudeste na novela Tieta. Agora, usou a designação comercialmente. “Todo mundo me conhece assim. O pessoal brinca bastante. Tem vários significados. No Nordeste, é sexual. Mas tudo bem. Bom é ser popular.”

Também é possível tomar uma gelada na cidade em lugares como Stri, Cunhado, Último Gole, Pontão, Ovelha Negra, Domingo, Zam Bar, Prezado, Butreco e Branco. É escolher o estabelecimento, chamar o garçom e deixar a imaginação fazer sua parte.