Criatividade é tudo
fevereiro 28, 2018
Orem por eles
fevereiro 28, 2018

Casal formado por deficientes visuais caminha com dificuldade pelas calçadas do Centro nervoso de Rio Preto. Medem cada passo, param estrategicamente, respiram o ar quente e tentam encontrar, mesmo na escuridão, o melhor caminho até o Terminal Rodoviário.

O grande obstáculo, no entanto, não foi vencido: atravessar a movimentada e pouco segura rua Pedro Amaral. Assim que o semáforo fecha, Maria de Lurdes Aparecida e Wanderlei de Souza Alves iniciam a travessia, ou seja, perigosa aventura no cenário de concreto e asfalto. Seguem em frente, mesmo sem a certeza de que estão na direção correta. Quando menos esperam, descobrem que não estão sozinhos.

A doméstica Teresinha Ribeiro, 44 anos, estende as mãos caridosas para ajudá-los. O delicado gesto de gentileza não é exceção no entorno do terminal, um lugar impregnado de urgência. Embora 40 mil pessoas passem pelas redondezas com a pressa de quem vai trabalhar em breve, que pretende voltar

logo para casar, tem compromisso inadiável ou vai encarar encontro ou despedida, ainda há espaço para pensar no outro e colaborar para que o mundo seja um pouco mais cordial.

“Fiquei feliz em ajudar. Tento me colocar no lugar de quem precisa. Vai que tropeçam e levam um tombo. É questão de consciência”, conta Teresinha. “É um sufoco. Às vezes, a gente fica parado um tempão. Ainda bem que aparecem essas pessoas”, acrescenta Alves.

A reportagem flagrou cinco momentos de solidariedade. É a rede do bem que se forma a cada dificuldade.

O mototaxista Paulo Fábio Silva, 40 anos, largou os afazeres profissionais por instantes para ‘escoltar’ Osvaldo Fiuza, 73 anos, pelas calçadas cheias de armadilhas na mesma rua. Só parou após encontrar lugar seguro.O idoso não enxerga nada há três décadas, em razão de um problema sério nos olhos.

Mas nem por isso desistiu de viver e sair por aí assim que a vontade aparece. A ação de Silva não foi esporádica, mas é fruto de intensa observação. “Já vi muita gente cair, principalmente idosos e deficientes. Tropeçam nas placas das lojas, batem a cabeça nos orelhões e enfrentam grandes dificuldades.” Diz que, se cada pessoa colaborar, o mundo fica melhor. Fiuza ficou grato. “Graças a Deus, sempre tem alguém para ajudar. Se não fosse assim, seria mais difícil.”

O funcionário público Rafael Oliveira, 23 anos, levou o aposentado José de Souza, 76 anos, na porta do terminal urbano. O aposentado caminha e fala com dificuldade. “É bom ajudar e fazer o bem.”

Já a aposentada Luzia Costa Santos, 65 anos, vinha de Bebedouro e parou no Terminal Rodoviário para pegar um ônibus até Jales. O bilhete é vendido no piso superior. Ela começou a carregar a mala, com 20 quilos, pela escada principal. Nem foi preciso vencer os intermináveis 35 degraus. No começo, apareceu o cobrador José Gilberto da Silva, 52 anos, que iria trabalhar em 30 minutos.

Solícito, ajudou a carregar a mala, o que causou espanto em Luzia. Ela nem percebeu que existe um elevador. “Graças a Deus, ele apareceu. Tenho problema no braço. Foi um gesto bonito de gentileza. Mas só deixei porque achei ele confiável.”

O sociólogo Pedro Henrique de Oliveira explica que a solidariedade é um ato instintivo. Só que a partir da Revolução Industrial, o homem ficou mais focado em dinheiro e no poder, o que mudou seu comportamento. “Esse tipo de atitude é muito importante para fazer um mundo melhor. A gente vive em um mundo muito frio.”

Silva tem como opinião que só fez sua parte. “Vi a senhora subindo a escada com a maior dificuldade. É uma satisfação grande ajudar alguém em apuros.” Para o cobrador, “gentileza gera gentileza.” Alguém duvida?