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fevereiro 28, 2018
Fazer o que é certo
fevereiro 28, 2018
O seu último desejo foi pescar. No leito de morte, não tinha contas para acertar com o passado, pendências financeiras ou sonho mirabolante.
Homem, aposentado, idoso, portador de câncer. Queria apenas sentar na beira da água, receber rajadas de vento no rosto e sentir o anzol denunciar que havia peixe distraído.
A saúde estava tão fragilizada que não reunia forças para pisar na calçada do Hospital de Base, em São José do Rio Preto (SP), onde se encontrava internado. Impensável viajar para qualquer rio na região.
Para ajudá-lo a realizar o último pedido e partir em paz, foi preciso misturar humanidade, criatividade e amor em estado bruto. Funcionários arranjaram varas de pescar e peixes de plástico, como aqueles usados em festas juninas.
Sem avisar, criaram um rio de ‘mentirinha’ no quarto. O paciente não acreditou ao perceber o que se passava. Ninguém sabe se a alegria que sentiu foi proporcionada por pescar ou se sentir acolhido. Ou os dois.
Não importa se foi real ou apenas encenação. O fato é que o simples gesto colocou um sorriso, sem prazo de validade, no rosto de um doente terminal.
A cena, por mais incrível que pareça, não é exceção no setor de cuidados paliativos do hospital, em funcionamento há seis anos anos. Pelo contrário.
Quem trabalha nessa ala é preparado para fazer o que é preconizado pela literatura médica, mas tem liberdade para ir além e oferecer tratamentos confortáveis e menos doloridos.
O paciente, geralmente portador de doença progressiva, tem autonomia para participar das decisões. Assim, é possível ajudar a realizar demandas, que são urgentes, inadiáveis, pulsantes.
Se proteladas, pode não existir tempo para a sua execução. Muitas vezes, os pedidos são tão pequenos, perante ao que se convém chamar de importante, que é difícil acreditar.
O que pensar sobre a pessoa que, perto do último pulsar, tem necessidade de ganhar chinelo, sentir o gosto do almeirão, se deliciar com a música ‘Menino da Porteira’, comer macarronada, se fartar com um duvidoso salgado de boteco, apreciar o derradeiro sol e mastigar pedaço de bolo de laranja?
Para quem está debilitado, tudo ganha proporções incalculáveis. Pode ser a última chance. Nada pode ficar para depois.
Observação
A foto que ilustra o texto é uma cena do filme ‘Antes de Partir’, de 2008.
Dois pacientes portadores de câncer se encontram internados no mesmo quarto. São muito diferentes. Um é milionário (Jack Nicholson). O outro é mecânico (Morgan Freeman). Assim que recebem a péssima notícia, criam uma lista com coisas simples e até excêntricas que deveriam fazer até o momento final, entre as quais pilotar um Mustang em alta velocidade, saltar de paraquedas e admirar a pirâmide de Quéops.