Feira do Livro de Bady Bassitt
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Menino Marcos, você merecia ter marcado um gol!
Apenas um golzinho.
Não precisava ser de placa, histórico ou suficientemente importante a ponto de garantir o título da Copa do Mundo.

Poderia ser de bico mesmo, com a canela ou sem querer.

Se você tivesse marcado um gol, menino Marcos,
teria chamado a atenção do Brasil.

Seu nome seria manchete em todo jornal,
seu nome estaria na pauta de qualquer programa de televisão,
seu nome ocuparia o topo das discussões na internet,
seu nome seria capaz de suscitar uma insustentável alegria.

Você, menino Marcos,
em plena terra da bola,
pegou o caminho da escola.

No lugar da camisa amarelinha, vestia uniforme escolar.
No lugar da bola, conduzia mochila com caderno, caneta e livro.
No lugar da chuteira multicolorida, usava tênis surrado.
Sua tática estava bem definida.
Estudar, aprender um pouco, trabalhar bastante e, de alguma forma, vencer na vida.

Mas em seu caminho, menino Marcos,
havia marcação forte e artilharia pesada.
Não houve segunda oportunidade,
mesmo para alguém de 14 anos.
Você foi atingido de forma fatal e covarde: pelas costas.
Pouca gente reclamou com veemência do injusto lance,
pediu punição exemplar aos algozes,
se importou com a crueldade.
O jogo segue.

Menino Marcos,
você nasceu, viveu pouco e morreu na terra da bola.
Nesse lugar, um jogador milionário
que chora em campo após uma pequena vitória
merece mais repercussão que um menino morto no caminho da escola.

 

Foto: Cartão Postal “Futebol”, com pintura de Carlito Menezes de Souza