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Heloíza Maria Carmona Santos tem somente dez anos, mas já se acostumou a driblar a morte, contrariar diagnósticos médicos e vencer enormes dificuldades. Ela nasceu com hidrocefalia grave, ou seja, água acumulada no cérebro. No período de gestação,
exames revelaram que estava condenada a viver em uma cama, em estado vegetativo. Não iria falar, andar e ser independente. Mas não aconteceu como previsto.

Helô nunca se entregou às verdades impostas dia após dia. Com força acima do normal, muitas vezes inexplicável, coleciona histórias de superação. Não só anda, fala com desenvoltura e até canta, como tem desenvolvimento intelectual muito acima da média para crianças de sua idade e um dom especial para a escrita. Mostra, assim, que existe grande lacuna entre a ciência e as coisas de Deus.

O caminho de Helô sempre foi pavimentado com a palavra ‘sim’. O embrião que lhe deu origem ficou congelado três anos. A arte-finalista Luciana Braga Carmona, 41 anos, não desistiu da filha, mesmo quando recebeu o diagnóstico durante a gravidez. Após domar o nervosismo, começou a incentivar o bebê, ainda na barriga, sempre com a mesma frase. “Se quiser lutar, eu vou te ajudar.”

Doze horas após nascer, a menina passou por complicada cirurgia para drenar líquido, instalar uma válvula na cabeça e reconstruir os ossos cranianos. Duas semanas depois, no entanto, o equipamento entupiu, e foi preciso outro procedimento igual. A família foi orientada pelos médicos a se despedir do bebê, em razão do alto risco de morte. Novamente tudo correu
bem.

Com o tempo a seu dispor e o amor incondicional da família, Helô cresceu, se desenvolveu e surpreende a todos com incrível capacidade de conciliar conflitos, ser ouvinte, perdoar e estender a mão a quem necessita de ajuda. “Deus é bom com a gente e oferece, todos os dias, grande oportunidade para minha filha.”

Helô é uma criança feliz, falante e não economiza nos sorrisos. Leva uma vida tranquila. Faz tudo o que deseja e tem muitos sonhos quando pensa no futuro. Só toma cuidado para não bater a cabeça, já que tem duas válvulas instaladas acima do cérebro. A doença afetou somente sua visão, pois tem estrabismo, e o crescimento.

De vez em quando, sofre com o comportamento inadequado de um ou outro colega. Recentemente, se desentendeu com outra criança. Ambas foram parar na diretoria. Após as conversas de praxe, Helô saiu-se com essa. “Não há problema nenhum. Eu te perdôo.” Ela não tem um numeroso círculo de amizade. Mas está sempre na companhia do irmão, Edilberto.

A leitura é uma das grandes paixões. Sempre tem um livro por perto, assim como o óculos, que usa desde os sete meses. Lê  sobre os mais variados assuntos, de literatura infantil à espiritismo. Quando está quieta, pode ter certeza: está “viajando”, com um exemplar na mão. Ela começou a escrever cedo, e não parou mais. É até colunista do jornal “Folha Caipira”.

Também gosta de UFC, Anderson Silva, Facebook, França, medicina, brigadeiro e beijinho. A reportagem, na dúvida, pergunta de qual: da mamãe ou o doce. “Dos dois”, responde, com ternura. Quer ser escritora e definiu o título da primeira obra, ainda no plano das ideias: “O sol que brilha em torno de mim”. “Tenho plena consciência da oportunidade que Deus me deu.”

Ela fez questão de cantar uma música para a reportagem, e não fez feio. Helô deu a primeira gargalhada aos quatro meses, seis anos antes da previsão médica. Alguém tem dúvida de que essa menina vai longe?

 

Reportagem publicada no jornal Diário da Região no dia 6 de novembro de 2012

Fotos – Guilherme Baffi