Sobre o câncer
fevereiro 28, 2018
Criatividade é tudo
fevereiro 28, 2018

Certa tarde ensolarada de fevereiro, eu estive no simpático apartamento de Rubens Alves, em um bonito bairro de Campinas. A assistente do escritor abriu a porta e me levou até a sala de estar, onde ele se encontrava. Após as devidas apresentações e quebra de protocolos sociais, começamos a conversar sobre assuntos de ordem trivial.

Até para deixá-lo à vontade, recordo-me de elogiar, com a surpresa de quem enxerga algo pela primeira vez, a bela paisagem proporcionada pelo 11º andar do prédio. A resposta, no entanto, foi surpreendente e indicou o tom da conversa. “Realmente é bonita, mas cansa depois de ser vista muitas vezes.”

Mesmo com esse inesperado aparte, Rubem Alves recorria ao infinito proporcionado pela janela da sala a cada pergunta. Antes de transformar o pensamento em frases, parava, respirava e repousava a mão no queixo. As respostas, no entanto, nem sempre surgiam organizadas, como seus leitores se acostumaram a ler em seus 158 livros.

No alto de seus 80 anos, o educador, poeta, pedagogo, filósofo, cronista, contador de história, teólogo e psicanalista demostrava cansaço físico e reclamou das limitações impostas pelo implacável tempo. De vez em quando, a memória falhava nos momentos em que a empolgação estava no auge. Mas reorganizava as ideias e voltava com aquelas frases que conquistaram uma legião de leitores e fãs.

“Ensinar é mostrar a vida e chamar a atenção para a coisa curiosa. Tem que provocar a curiosidade. Ensinar é despertar o tesão da alma”, declarou na entrevista esse mineiro, nascido em Boa Esperança, para mostrar seu ponto de vista sobre o atual estágio da educação brasileira.

Rubem Alves, mesmo na condição de entrevistado, não oferecia tudo de uma vez, de forma gratuita. A todo instante, convidava o interlocutor para pensar e, assim, chegar às respostas por conta própria. Ele influenciou e influencia professores, educadores, estudantes e leitores de todo o mundo. Vendeu três milhões de livros em 12 países.

Durante quase duas horas, conversamos sobre educação, vida, poesia, literatura, escola e as pequenas situações do dia a dia. Não deixou de responder nenhuma pergunta, embora tenha pedido para ignorar uma questão: ‘Se acreditava em Deus’.

A passagem de Rubem Alves pela terra se encerrou, em razão de falência múltipla de órgãos. Mas devem permanecer por um bom tempo as bandeiras que levantou sobre a necessidade de revolucionar a educação brasileira e suas ideias sobre a importância de viver as pequenas coisas sem o peso do mundo nas costas.

Disse que as coisas que não existem são poderosas.